de_forma's Blog

Eram o número 109 e 119 May 23, 2016

Demolido2E assim perde-se mais dois, comuns a tantos outros da cidade, únicos desta cidade.

Exactamente por este motivo deveriam ser preservados a peso de ouro, ainda por cima quando formam um conjunto de vizinhos semelhantes.

A Rua Álvaro de Castelões passa a não ter nenhum conjunto coerente de edifícios do século XIX. São fragmentos, uns ali e outros acolá, que não servem para contar a história de como terá sido esta rua em tempos antigos.

Provavelmente um reluzente edifício branco, a prestar homenagens ao grande arquitecto do Porto, ocupará o seu lugar. Creio que a homenagem ficará aquém, pois a cidade é feita de cantaria granítica, azulejos, varandas de ferro…não há brancura que chegue perto.

Gota a gota a cidade esvazia-se de personalidade…

 

O importante é propor. May 14, 2016

“O importante é a vida, o sujeito viver bem, de mão dada”

Oscar Niemeyer

Numa tarde qualquer decidi olhar no site da Câmara Municipal do Porto as propostas que o novo Plano Director Municipal (PDM) contempla para as redondezas de onde moro, ou pelo menos as que dizem respeito à responsabilidade deste município, uma vez que no meu entender os demais municípios adjacentes possuem o mesmo direito de usar o nome Porto. Isto é assunto para outro post…

Pretendia ver em especial o mapa de uso do solo na esperança de constatar a existência de politicas para consolidação do tecido urbano, e também de restauro dos prédios antigos abandonados, alguns deles de grande interesse arquitectónico, numa região da cidade em que o património histórico não é especialmente abundante.

Foi com certo desgosto que descobri que no plano havia a proposta de ligação de uma rua, hoje sem saída, à Rua de Costa Cabral, que implicava passar por cima de um dos edifícios antigos que citei antes.

Imp

Detalhamento da proposta de demolição para a rua proposta pela Câmara Municipal do Porto

A maneira com que a proposta será implementada é inadequada por uma série de factores:

  1. O edifício a ser demolido, além de histórico, com um leve traçado Art Nouveau que sugere tratar-se de algo edificado entre 1910-1920,  faz parte do alçado consolidado dos edifícios em banda da rua. Ou seja, as suas cérceas estão alinhadas com o vizinho de acordo com o máximo permitido por lei, neste caso térreo e mais 3 andares, o que, portanto, não cria fachadas cegas desnecessárias e é um elemento importante para consolidar a frente urbana da rua, que apresenta muitas incongruências em relação à cércea de edifícios.
  2. O edifício a ser demolido, que na verdade  é idêntico a um dos vizinhos laterais, criaria com  a passagem da rua uma situação de empenas cegas. Num lado teria uma construção relativamente recente, totalmente habitada, e no outro o seu irmão gémeo, hoje abandonado, que leva a crer que teria a demolição como destino, uma vez que para os investidores dificilmente iria apetecê-los restaurar ao invés de demolir e construir algo de raiz – seguindo já o exemplo da política municipal que demonstra despreocupação quanto a isto. O mais provável é que viesse abaixo junto com o que dará lugar à rua, e fique um terreno baldio por algumas décadas, conforme exemplos que existem nas redondezas.
  3. A situação mais gritante da proposta é que, ao lado do referido irmão gémeo do edifício que está com a cabeça na guilhotina, existe já uma ligação, a Travessa da Areosa, que liga as duas ruas que a proposta da Câmara pretende ligar, e mostra-se inadequada, pois é estreita, daquelas em piso de paralelepípedo em pedra, da época em que só passava o agricultor e mais o burro carregado de alfaces na carroça. A mesma passa em terrenos baldios aonde abundam os gatos vadios e amoras silvestres, e algumas ruínas de casas em granito, aonde só restam as paredes, e não agregam em nada. Ao ser feito o novo acesso, julga-se que esta travessa permanecerá, sem nenhum uso justificável, e quase como um pleonasmo.
  4. Entre o encontro da travessa e a Rua de Costa Cabral, na esquina oposta daquela aonde situa-se o edifício irmão gémeo do condenado, estão uma série de 3 edifícios compostos por térreos e 1 andar, também em pedra, dois deles já abandonados e em ruínas. Estes, além de não terem interesse histórico, estão desalinhados com o recuo da rua, e causam um estreitamento do passeio. Obviamente que na hipótese deles serem vendidos e construído algo novo no lugar deles, a Câmara obrigará que os novos sejam alinhados com o recuo do vizinho.

Dito isto, e por conhecer bastante do sítio em questão, decidi fazer uma proposta que acredito ser mais proveitosa para a cidade, alia oportunidades que as próprias condicionantes pedem, e sem os efeitos colaterais que a proposta camarária traz.

A questão primordial passa por reutilizar a travessa estreita, alargando-a no espaço ocupado pelo edifícios desalinhados do recuo e mais atrás pelos terrenos baldios das ruínas. Creio ser óbvio que esta opção possibilitaria com que novos edifícios surgissem, e criariam uma frente urbana viva ao nível os passeios; na proposta da CMP só pelo facto de haver a geração de duas fachadas cegas esta possibilidade já é severamente comprometida.

O facto da rua vir a ser mais tortuosa do que a actual proposta não é um entrave, pois será uma via de circulação local,  e este traçado possibilita vistas interessantes para os futuros edifícios que nasceriam no seu interior; um deles já aproveitaria a fachada cega existente na parte alargada da travessa e prosseguiria até juntar-se ao projecto hipotético da esquina da Costa Cabral.

Sobre este projecto de esquina, é uma volumetria desenvolvida para proporcionar uma continuidade com o edifício contíguo existente, além de ao dobrar da esquina prever um chanfro que facilite a apreensão do espaço e revele a nova travessa de maneira gradual, conforme caminha-se. Acima da cércea de alinhamento, um outro corpo com a mesma altura da base, portanto 12 metros, desenvolve-se e totaliza 24 metros de altura. Este é recuado do vizinho – permite aberturas nas 4 faces –  e debruça-se sobre a rua em outra parte, criando um espaço coberto e mais intimista, ao mesmo tempo em que demarca e cria personalidade para a situação urbana. O potencial construtivo excedente que esta volumetria proporciona, em comparação com uma solução tradicional, serviria também para amortizar os custos com desapropropriações que a Câmara gastaria.

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Creio que fora a proposta do bloco acima da base, não trata-se de nenhum procedimento fora da alçada rotineira que o departamento de urbanismo da CMP lida nas suas competências, e é facilmente realizável, demanda menos desapropriações, salvaguarda o património histórico que é escasso nesta zona da cidade e cria um caminho para fazer-se cidade, ao invés de retalhos sem coerência.

 

Londres cada vez menos Londres. February 2, 2010


Tottenham Court Station

Que Londres é uma das cidades mais visitadas do mundo todos sabemos,seja pela vocação histórica aos negócios,ou por turistas em busca da arte e cultura inglesa,do aperfeiçoamento do idioma,ou então,só para se fotografar com a foto do Big Ben atrás e por no orkut depois.
No caso dos turistas que procuram a cidade pela sua cultura,a atmosfera do lugar é muito importante,e essa atmosfera,embora não exclusivamente,está muito presente nos edifícios antigos da cidade.
Edifícios estes que são em muito menor número do que os que havia antes da Segunda Guerra Mundial,fato este que acabou por conformar o atual mix pecualiar de Londres,com construções de várias épocas e estilos,que nem sempre se ajustam e conversam da melhor maneira.
No Pós-Guerra veio a reconstrução da cidade e,ironicamente,mais destruição de patrimônio com os planos Modernistas de bota abaixo de bairros tradicionais para trazer “a ordem e razão de uma nova era.”Curiosamente,são hoje estes bairros que,a grosso modo,mais sofrem de degradação e de problemas de violência.Parece que a razão estava equivocada.
Com tudo isto,os edifícios vitorianos,eduardianos e sei lá o “quêianos” que subsistem até hoje já são vencedores,logo deveriam ser preservados a todo o custo a fim de manter ainda a atmosfera típica da cidade de outras épocas,e evitando assim o processo de banalização e tranformação em “mais uma cidade igual a tantas outras pelo mundo.”
Mas o que acontece não é bem assim.
Com um òrgão público de salvaguarda do patromónio(o English Heritage)que dizem,estar mais preocupado em manter as vistas dos grandes monumentos livres de arranha-céus na sua frente,do que de cuidar propriamente do património da cidade como um todo,incluindo-se ai os edifícios cotidianos de épocas passadas que faziam as ruas do tecido da cidade.
Estes são os primeiros a ser alvo da terceira destruição,que não é de guerras e nem de ideologias,é o da especulação imobiliária.
É a que destrói,aos poucos,a memória da cidade.
Decidi escrever isto depois de saber de mais uma infeliz demolição,a da Tottenham Court Station(que aparece na imagem) e dos edifícios adjacentes,para que no seu lugar sejam melhorados os acessos a esta estação movimentada,que também receberá mais uma linha de metrô.
Há várias motivos alegados para a sua demolição(que podem ser lidos mais profundamente nos links abaixo),mas que fique claro antes que após feitos so acessos à estação,o espaço sobre elas será vendido ao setor privado para que lá façam os seus edifícios.
Isto explica já muita coisa,explica que se preservar fosse uma prioridade,eles teriam arranjado outras soluções com a finalidade de manter o edificado.
Explica que definitivamente a preservação não está entre as maiores preocupações da política de Londres,e explica que,quando eu quiser sentir o espírito ye olde England,de Londres só usarei a escala em Heathrow para outra cidadade qualquer.

Para saber mais…

Skyscrapercity – Esta secção tem várias fotos dos edifícios demolidos de Londres ao longo da história.
Skyscrapercity – Do mesmo site vem também uma discussão atualizada com as novas sobre o projeto da Tottenham Court Station.
Derelict London – Várias imagens de edifícios abandonados de Londres,muitos deles com a faca no pescoço já.
Victorian Society – ONG que luta pela defesa do patrimônio arquitetonico antigo do UK.

 

 
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