de_forma's Blog

Do apagar ao reinventar December 15, 2016

 

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Os argumentos textuais que nós, os arquitectos, usamos em relação a procedimentos do projecto de arquitectura soam tão bem aos ouvidos que ás vezes até parece poesia. Isto a princípio não seria problema se uma arte não fosse tão diferente da outra na sua base; de maneira grosseiramente resumida e cliché,uma utiliza letras, e a outra tijolos.

Tenho prestado atenção nas abstracções linguísticas que os meus colegas têm dito para explicar os seus projectos,e disto ver o quanto o apego excessivo a tal procedimento pode acabar por aniquilar aspectos interessantes da realidade, isto quando o próprio argumento acaba por ser incoerente por si só  perante o objecto.

Escolhi uma reforma de uma edificação que vi em anúncios do Facebook para ilustrar este argumento, e tentar perceber, de maneira reversa, quais teriam sido os argumentos ditos( ou pensados) que levaram ao resultado.Evidentemente isto é só uma suposição, uma vez que não é possível afirmar que o referido projecto passou por estas etapas.Enumerei alguns abaixo:

  1. Pôr ordem na forma geral do edifício.
  2. Limpar o desenho do excesso de informação.
  3. Fazer parecer novo.

Como o edifício em questão é uma intervenção no existente, fica visível notar o que era indesejável manter por parte do arquitecto; com isto pode-se contrapor o resultado final com o pré-existente e daí nasce a crítica.

  • De maneira geral, está claro que o argumento 1 está presente, uma vez que ao ver o render nada dá conta de que o estado inicial do edifício alguma vez existiu. Foi apagado por completo! A tentativa de ordená-lo visualmente pelos 3 pisos, com uso de cores e materiais diferentes, acabou por aniquilar uma ordem pré-existente forte: o muro lateral que nasce do térreo e corre o aclive do terreno.
  • Derivado do argumento 1, a questão de “limpar o desenho do excesso de informação” recai especialmente ( mas não unicamente, pois não vou falar das janelas) sobre o facto dos azulejos com motivos geométricos terem sido arrancados.Com toda a certeza não são azulejos artesanais do século XIX, e o arquitecto deve ter pensado que “ah são feitos em linha de produção, para a casa de banho” e “estes labregos quiseram pô-los na fachada”, afinal, como todos sabemos, a tinta branca ou preta da Robbialac que os substituiu  é feita pelos monges beneditinos no claustro do Mosteiro de Santo Tirso!
  • O argumento 3 se calhar deveria ser o primeiro, pois é esta a sensação que se tem ao ver o produto final, e talvez tenha sido a intenção antes de qualquer outra das que enumerei. Como dito antes, sem ter acesso à configuração anterior do edifício, parece que estamos diante de uma obra completamente nova.E agora vocês se perguntam, e afinal porque está a palavra “reinventar” no título deste post? É nesta palavra que está a crítica, no que poderia ser e não foi feito!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espaços e organizações September 8, 2016

Filed under: Uncategorized — deforma @ 10:38 pm

Só para ver e pensar…

 

 

 

Breves considerações sobre o novo parque urbano de Rio Tinto September 1, 2016

 

Indiscutivelmente louvável e necessária, a proposta de regeneração do projecto do Parque Urbano de Rio Tinto visa, antes de mais nada, consertar o erro que foi o entubamento do rio feito na década de 90; desta premissa inicial nascerá o novo espaço, em meio a retalhos urbanos e conflitos do sistema viário.

As sugestões aqui feitas devem ser vistas como um complemento ao projecto actualmente em vigor, de maneira a abranger condicionantes que potencializem mais o futuro parque.São elas:

  • Traseiras dos lotes/construções da Rua Amália Rodrigues.

Esta é uma configuração complexa, devido ao facto de estar parte consolidada por habitações unifamiliares, e ao mesmo tempo ser um terreno de imenso declive entre a referida rua e a cota do parque, mas baixa em relação à primeira. Conforme o projecto, os altos muros de arrimo das habitações servem de fronteira ao parque. Este traçado, ainda que previsto ser ocupado por caminhos pedonais localizados entre o rio e os muros, acaba por não explorar outras soluções que poderiam criar uma espécie de frente urbana, e amenizar o impacto de pouco interesse resultante do limite do parque nesta zona, tal como está previsto.

  • Integração com a Quinta das Freiras

Um espaço público de excelência, construído em 1965 e localizado adjacente ao futuro parque, não foi contemplado com um facilitador de integração ao mesmo. Curiosamente, a equipa de projectos foi sensível a unificar as secções 1 e 2 do parque com a 3, suprimindo a rua existente. A linha de metro existente, que segue paralela à Quinta das Freiras, poderia ter sido o fio condutor de uma integração total entre os espaços.

 

Lady Faupicooper July 4, 2016

Filed under: Uncategorized — deforma @ 10:27 pm

Eles chamam de limpeza, mas eu creio que isto é um pretexto para a FAUP sair do armário, e assumir a travesti baseada na diva Cooper Union que habitava nesta pele branca e de arestas fortes. Um bom exemplo de tolerância para a comunidade transgênero da arquitectura. Vamos aplaudir!

FAUP travesti

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Eram o número 109 e 119 May 23, 2016

Demolido2E assim perde-se mais dois, comuns a tantos outros da cidade, únicos desta cidade.

Exactamente por este motivo deveriam ser preservados a peso de ouro, ainda por cima quando formam um conjunto de vizinhos semelhantes.

A Rua Álvaro de Castelões passa a não ter nenhum conjunto coerente de edifícios do século XIX. São fragmentos, uns ali e outros acolá, que não servem para contar a história de como terá sido esta rua em tempos antigos.

Provavelmente um reluzente edifício branco, a prestar homenagens ao grande arquitecto do Porto, ocupará o seu lugar. Creio que a homenagem ficará aquém, pois a cidade é feita de cantaria granítica, azulejos, varandas de ferro…não há brancura que chegue perto.

Gota a gota a cidade esvazia-se de personalidade…

 

O importante é propor. May 14, 2016

“O importante é a vida, o sujeito viver bem, de mão dada”

Oscar Niemeyer

Numa tarde qualquer decidi olhar no site da Câmara Municipal do Porto as propostas que o novo Plano Director Municipal (PDM) contempla para as redondezas de onde moro, ou pelo menos as que dizem respeito à responsabilidade deste município, uma vez que no meu entender os demais municípios adjacentes possuem o mesmo direito de usar o nome Porto. Isto é assunto para outro post…

Pretendia ver em especial o mapa de uso do solo na esperança de constatar a existência de politicas para consolidação do tecido urbano, e também de restauro dos prédios antigos abandonados, alguns deles de grande interesse arquitectónico, numa região da cidade em que o património histórico não é especialmente abundante.

Foi com certo desgosto que descobri que no plano havia a proposta de ligação de uma rua, hoje sem saída, à Rua de Costa Cabral, que implicava passar por cima de um dos edifícios antigos que citei antes.

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Detalhamento da proposta de demolição para a rua proposta pela Câmara Municipal do Porto

A maneira com que a proposta será implementada é inadequada por uma série de factores:

  1. O edifício a ser demolido, além de histórico, com um leve traçado Art Nouveau que sugere tratar-se de algo edificado entre 1910-1920,  faz parte do alçado consolidado dos edifícios em banda da rua. Ou seja, as suas cérceas estão alinhadas com o vizinho de acordo com o máximo permitido por lei, neste caso térreo e mais 3 andares, o que, portanto, não cria fachadas cegas desnecessárias e é um elemento importante para consolidar a frente urbana da rua, que apresenta muitas incongruências em relação à cércea de edifícios.
  2. O edifício a ser demolido, que na verdade  é idêntico a um dos vizinhos laterais, criaria com  a passagem da rua uma situação de empenas cegas. Num lado teria uma construção relativamente recente, totalmente habitada, e no outro o seu irmão gémeo, hoje abandonado, que leva a crer que teria a demolição como destino, uma vez que para os investidores dificilmente iria apetecê-los restaurar ao invés de demolir e construir algo de raiz – seguindo já o exemplo da política municipal que demonstra despreocupação quanto a isto. O mais provável é que viesse abaixo junto com o que dará lugar à rua, e fique um terreno baldio por algumas décadas, conforme exemplos que existem nas redondezas.
  3. A situação mais gritante da proposta é que, ao lado do referido irmão gémeo do edifício que está com a cabeça na guilhotina, existe já uma ligação, a Travessa da Areosa, que liga as duas ruas que a proposta da Câmara pretende ligar, e mostra-se inadequada, pois é estreita, daquelas em piso de paralelepípedo em pedra, da época em que só passava o agricultor e mais o burro carregado de alfaces na carroça. A mesma passa em terrenos baldios aonde abundam os gatos vadios e amoras silvestres, e algumas ruínas de casas em granito, aonde só restam as paredes, e não agregam em nada. Ao ser feito o novo acesso, julga-se que esta travessa permanecerá, sem nenhum uso justificável, e quase como um pleonasmo.
  4. Entre o encontro da travessa e a Rua de Costa Cabral, na esquina oposta daquela aonde situa-se o edifício irmão gémeo do condenado, estão uma série de 3 edifícios compostos por térreos e 1 andar, também em pedra, dois deles já abandonados e em ruínas. Estes, além de não terem interesse histórico, estão desalinhados com o recuo da rua, e causam um estreitamento do passeio. Obviamente que na hipótese deles serem vendidos e construído algo novo no lugar deles, a Câmara obrigará que os novos sejam alinhados com o recuo do vizinho.

Dito isto, e por conhecer bastante do sítio em questão, decidi fazer uma proposta que acredito ser mais proveitosa para a cidade, alia oportunidades que as próprias condicionantes pedem, e sem os efeitos colaterais que a proposta camarária traz.

A questão primordial passa por reutilizar a travessa estreita, alargando-a no espaço ocupado pelo edifícios desalinhados do recuo e mais atrás pelos terrenos baldios das ruínas. Creio ser óbvio que esta opção possibilitaria com que novos edifícios surgissem, e criariam uma frente urbana viva ao nível os passeios; na proposta da CMP só pelo facto de haver a geração de duas fachadas cegas esta possibilidade já é severamente comprometida.

O facto da rua vir a ser mais tortuosa do que a actual proposta não é um entrave, pois será uma via de circulação local,  e este traçado possibilita vistas interessantes para os futuros edifícios que nasceriam no seu interior; um deles já aproveitaria a fachada cega existente na parte alargada da travessa e prosseguiria até juntar-se ao projecto hipotético da esquina da Costa Cabral.

Sobre este projecto de esquina, é uma volumetria desenvolvida para proporcionar uma continuidade com o edifício contíguo existente, além de ao dobrar da esquina prever um chanfro que facilite a apreensão do espaço e revele a nova travessa de maneira gradual, conforme caminha-se. Acima da cércea de alinhamento, um outro corpo com a mesma altura da base, portanto 12 metros, desenvolve-se e totaliza 24 metros de altura. Este é recuado do vizinho – permite aberturas nas 4 faces –  e debruça-se sobre a rua em outra parte, criando um espaço coberto e mais intimista, ao mesmo tempo em que demarca e cria personalidade para a situação urbana. O potencial construtivo excedente que esta volumetria proporciona, em comparação com uma solução tradicional, serviria também para amortizar os custos com desapropropriações que a Câmara gastaria.

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Creio que fora a proposta do bloco acima da base, não trata-se de nenhum procedimento fora da alçada rotineira que o departamento de urbanismo da CMP lida nas suas competências, e é facilmente realizável, demanda menos desapropriações, salvaguarda o património histórico que é escasso nesta zona da cidade e cria um caminho para fazer-se cidade, ao invés de retalhos sem coerência.

 

Andando na teia November 9, 2015

Filed under: Uncategorized — deforma @ 1:25 am
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O projeto do Studio Arthur Casas e Atelier Marko Brajovic para o pavilhão do Brasil da Expo 2015 em Milão é literalmente uma experiência de andar na teia.

Com um trama em rede que serve de chão e constrói um espaço que instiga a curiosidade a cada passo, este pavilhão consegue, exclusivamente graças  a esta característica, a proeza enorme de unir um experimento formal a um percurso – e com um elemento banal, a rede, que é reinventada a meu ver de maneira fenomenal.

Consigo imaginar a sensação de desiquilibrio conforme se anda e a trama verga, ao mesmo tempo da de descoberta de olhar para baixo por entre o emaranhado de fios; uma pessoa que se chegue mais perto de outra tem o poder de desestabilizar o chão aonde se anda.

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